Musealização da Central Hidroelétrica do Caldeirão – Torres Novas // Recolha de memórias e testemunhos dos trabalhadores.

Procurando obter os testemunhos dos trabalhadores, e conhecer melhor as dinâmicas laborais da central, fomos ao encontro do Sr. João Carlos Pereira Gaveta a quem agradecemos a disponibilidade.

 1ª parte

 

“Sou natural de Torres Novas, freguesia do Salvador, e a minha história na Empresa Industrial de Eletricidade do Almonda começou a 8 de março de 1982, quando me apresentei ao serviço, apenas com 14 anos. Mas, na verdade, a minha história com a Empresa de Eletricidade do Almonda começou em casa, pois já trabalhavam na empresa o meu pai, José Manuel Gaveta, e o meu tio. Certo dia, o meu pai disse-me que era preciso um ajudante para a serralharia e, na segunda-feira seguinte, dia 8 de março, apresentei-me na empresa ao Sr. Manuel Piranga, que era o Chefe. Apesar de eu ser apenas um miúdo, já estava habituado ao sítio e às pessoas, e já conhecia grande parte dos colegas do meu pai porque estava habituado a ir nas férias para a Central. Conheci alguns dos mais velhos, que marcaram aquela casa, como o Sr. Vasco. Lembro-me muito bem do primeiro dia de trabalho. Eu ia para a serralharia, lá me indicaram o meu lugar. Era um serviço exigente porque não era fácil trabalhar com o “Mestre” Chico Pereira. Nesse dia, entrou lá o Sr. Piranga e disse: - “Oh Chico, está aqui o filho do Zé Gaveta que é para vir trabalhar ao pé de ti” (…). Ele respondeu: - “Está bem. – Espera aí rapaz…”. Eu fiquei de “boca calada”, pois já tinha sido instruído pelo meu pai para não responder; “ouvir e calar”; que não era para falar, era para aprender com os olhos e executar com as mãos.  Depois ele acompanhou-me. Passava-se pela sala das máquinas, descia-se à cave, e entrava-se nas garagens, onde estava o material de stock e o acesso à oficina propriamente dita, onde ficava a bancada e os cavaletes. Nesse dia ele estava a soldar; estava a fazer um tubo de terra com um fio de cobre. De repente, virou-se para mim e disse: “– Ó rapaz passa-me aí uma picola!” Para mim, tudo podia ser uma picola que eu não fazia ideia o que era… foi logo o meu cartão de visita! Deu-me um encontrão, levantou o objeto e disse: - “Picola é isto rapaz!”. A partir daí, foi dia-a-dia… O Sr. Chico Pereira, para se lidar com ele, era preciso dar tempo ao tempo. Depois demo-nos sempre bem, ao ponto de ele começar a aceitar as minhas ideias, e apesar de eu ser muito novo e ter apenas 17 ou 18 anos, lá ia comigo à loja do Sr. Bragança, que existia ali no antigo Largo do polícia sinaleiro e onde se encomendava material para os eletricistas trabalharem.”

(continua…)

 

João Carlos Gaveta

Eletricista, 55 anos

Torres Novas

 

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