Guerras e soldados
Ontem, dia 9 de julho, assinalou-se o Dia Mundial pelo Desarmamento. Se a Paz é um dos maiores bens da humanidade, é também uma espécie de quimera para todos aqueles que se veem envolvidos em guerras, ou seja, uma parte significativa da população mundial.
Olhando para o passado e para temas locais, recordamos que, na nossa história recente, dois conflitos de considerável dimensão deixaram marcas indeléveis na memória das gentes: a Primeira Guerra Mundial e a Guerra Colonial. Em ambas, centenas de jovens foram recrutados para combater longe da sua terra. Não sabemos ao certo o número de combatentes torrejanos na Grande Guerra (1914-1918), mas foram seguramente mais de 350 (sendo este o número aproximado dos registos conhecidos), dos quais mais de 20 perderam a vida no conflito. Nesta altura, a taxa de analfabetismo no concelho rondava os 75%, pelo que a propaganda de guerra dificilmente lhes chegaria através dos jornais, onde poderiam, se soubessem ler, ter acesso a frases como: «Odeia o inimigo», «Defende a tua pátria», «Despreza os boateiros», «Vigia os espiões»; ou ler artigos contra os «germanófilos» e incentivando o ódio contra os alemães. Era a igreja, através da homilia, o grande “noticiário” dos acontecimentos “relevantes” para todas estas pessoas que não sabiam ler nem escrever.
Para a Guerra Colonial (1961-1974), Portugal mobilizou o dobro dos soldados que haviam sido recrutados na Primeira Guerra Mundial, pelo que é provável que, para o nosso concelho, proporcionalmente, também esse número tenha duplicado (embora não tenhamos escrutinado dados mais concretos). Também os mortos foram em maior número. Quase 40 soldados torrejanos perderam a vida em território africano.
A correspondência escrita, os jornais, com as suas notícias e crónicas de época mostram bem o ambiente vivido. De um lado, o sofrimento, as perdas, as tragédias familiares de todos aqueles que foram chamados a combater sem terem tido qualquer papel nas decisões que os levaram para a frente de batalha, com uma arma na mão. São as notícias de mortos e feridos no “Ultramar”, ou simples anúncios da família que, saudosa, recorda o aniversário de um filho ou marido enviado para África, ou dos próprios que antes de ir se despedem publicamente de amigos e familiares. Simultaneamente, os artigos de opinião versam sobre o “patriotismo”, sendo as populações revoltosas das ex-colónias portuguesas vistas como terroristas, enquanto outros países, contrários a esta guerra, como a União Soviética e os Estados Unidos ou organizações internacionais como a ONU, eram tidos como inimigos.
As guerras precisam de ter as tropas motivadas e há sempre uma narrativa que estimula o combate e constrói a ideia de “inimigo”, mas parafraseando Paul Valéry, não são os autores da narrativa os que se matam. São sempre os outros, os que não têm qualquer papel nas decisões que conduzem à guerra, quer sejam os combatentes ou as populações civis.
Referências:
O torrejano, 16 de setembro de 1917, p. 1
Moleiro, Margarida, «Os primeiros seis meses da guerra colonial na imprensa torrejana», Nova Augusta. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2003, pp. 89-113
Simões, Jorge, A população de Torres Novas. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2007, p. 56
Figuras: MMTN N.º 10 - Granada de 5.5 cm, com cabo de madeira onde estão as inscrições: 5 1/2 SEK-GJB e 2.2.17; no envólucro do explosivo tem as inscrições: "VorGebrauzh Sprengkapse Einseizen". Usado na 1ª guerra mundial. Doado por médico português que serviu em França; MMTN N.º 108 – Catana com inscrição incisa «Viva UPA» (Angola)

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