Autores torrejanos X – Jerónimo Ribeiro Soares
Jerónimo Ribeiro Soares é outro dos autores da escola vicentina, autor do «Auto do Físico», do qual transcrevemos um excerto. Este auto foi publicado em «Primeira parte dos autos e comédias portuguesas, feitas por António Prestes, e por Luís de Camões, e por outros autores portugueses». Desconhecendo-se a data de nascimento e de morte deste autor torrejano, fica-nos a referência da data de publicação da referida obra, 1587. Publicado de novo em 1918 pela Academia das Ciências de Lisboa, o «Auto do Físico» foi bastante elogiado por Francisco Maria Esteves Pereira a quem fora cometida a incumbência de apresentar o autor e a obra na referida publicação da ACL.
O físico (pai) deseja casar sua filha e contrata o casamento com um estudante de Salamanca, sobrinho de um letrado, seu amigo.
Ao ter conhecimento de que ia chegar o futuro marido da filha do físico, a moça Inês avisa o escudeiro, que se antecipa e apresenta como verdadeiro noivo. Mas este chega, entretanto, e escudeiro e serviçal desvendam toda a trama.
Pay Vosso esposo não no vejo,
parece que se detem:
ja tarda, se oje não vem:
o tempo no mòr dessejo
he contrayro a todo bem:
eu tenho carta de quando,
que serà aqui tè menhãa:
naceme assi esperando
cada momento hũa cãa,
que o tempo vay dilatando.
Entra o namorado fengindo que he o que vem pera casar com a Filha, e diz a hum seu Amigo.
Escudeyro Vos ficareis nesta porta,
que aqui he, eu ey dentrar,
porque amor me faz ousar:
que em caso que tanto importa
honrra e vida ey de arriscar.
Amigo Pois olhay não vos conheça,
de quando viestes ca.
Escudeyro Então vinha morto ja,
de toucador na cabeça,
ninguem me conhecerà.
Creo questou nauegado:
he ca senhor Doutor.
Pay Quem diremos, meu senhor.
Escudeyro Hum filho seu e criado,
de quem sois pay e senhor.
Pay Filha, não vos leuantais
ver o senhor vosso esposo:
há, senhor, tudo curais,
que as chagas que me dais,
me curais com tanto goso.
Filha dalma e desta vida,
donde minha honrra depende,
o engenho não entende
daruos a honrra deuida,
que esta vontade pertende:
falay a este senhor,
que he esposo e senhor vosso.
Filha O tempo descobridor
mostrarà em mi o amor,
que agora mostrar não posso.
Escudeyro A fama no mundo voa
de serdes fermosa dama:
mas he vento o que se soa,
que co preço da pessoa
excedeis a propria fama.
Pay Com amor volo parece.
Escudeyro Igoal fica o interesse,
se eu sou merecedor,
tambem ela por amor
ganha em mim quem a merece.
Pay Dizey, filho, de maneyra,
vosso tio não me honrrou.
Escudeyro Senhor, meu tio ficou
por se opòr a hũa cadeyra
que em Salamanca vagou.
Pay Pois vi hum contentamento,
o mayor antre os humanos
façase este ajuntamento,
porque ja cada momento
me parece cem mil anos.
Entra o Moço com o verdadeyro desposado, e diz o Moço.
Moço Bem pode entrar, aqui he:
eis aqui està meu senhor.
Estudante Deme a mão, senhor Doutor.
Pay Quem direy vossa merce.
Estudante Jenrro, filho e seruidor.
Pay De que filha, quem diremos.
Estudante Senhor, sou Lucas de Lemos,
filho em quanto Deos quiser,
a quem Deos chegou a ver
num gosto tantos extremos.
Moço Senhor, fale àquela rosa,
com quem seja bem casado.
Escudeyro Este senhor he cunhado
da senhora minha esposa,
se não tras o tento errado:
e foy sobeja licença,
a que agora aqui tomou.
Estudante Se ey de trazer conhecença
pera abono de quem sou,
eis aqui carta de crença.
Pay Ha senhor, que inda temo,
que se gore este dessejo,
que eu tinha por tão supremo,
em caso de tanto estremo
em dous estremos me vejo.
Lee o Pay a carta, e diz o Moço.
Moço Os Enfatriões passados
são estes dous de hũa fragoa,
são galhetas germanados,
porem se forem cheirados,
este he galheta dagoa.
Pay Ho meu filho natural,
quem me fez tam claro engano,
porque me fostes tirano
de minha honrra: este sinal
me da craro desengano.
Estudante Como, assi salteado.
Escudeyro Ha senhor, que ò condenado
a rezão toda lhe mingoa,
e se lhe enmudecesse a lingoa
conhecendo ser culpado.
Estudante Em culpa tão conhecida,
De quem tanto se atreueo,
pois isso não conheceo,
merece pagar co a vida
tal erro qual cometeo.
Escudeyro Se amor e esperança
tem desculpa no culpado,
amor me fez tão ousado:
eisme aqui, tomay vingança,
que aqui estou ao jugo atado.
Pay Està bem, mas violar
minha casa, minha honrra,
não he leue de passar.
Ines Quer Deos e a rezão e honrra
que fale eu, am de escutar.
Senhor, crieyme nesta casa, e estou mais
obrigada a antigua lealdade que ao temor
da vida: em mim consiste o segredo deste
tecido engano: e como eu neste caso sou
o mais culpado reo, mais quero padecer
a culpa, que o menor quilate da fama e honrra
da minha senhora. Saberão vossas merces,
que este senhor namorou minha senhora
muitos dias à custa de sua inocencia, do
que ela não sabia parte, a quem eu mouida
do interesse grangeaua com enganos fen-
gindolhe cartas e recados falsos, pelo que
dele esperaua: e este senhor he o enfermo
fengido, que veio aqui estoutro dia, e foy
ardil pera poder vela: como o interesse
seja inuentor de cousas não imaginadas,
sotelizaua mil inuenções de fauores de que
minha senhora està salua: e chegando o
tempo, em que vossa merce tinha dado pa-
laura de casar minha senhora com o senhor
seu genrro, que presente està, demprouiso
o fiz saber ao senhor Lopo dAndrade, e
lhe fiz tomar este contrafeyto abito que tem,
fengindo vir de Salamanca, porque que-
rendo seu mal afortunado destino ficasse
casado com minha senhora: e soccedeo o
contrayro como vemos: mas como o de-
monio he enemigo da verdade , e a ver-
dade seja Deos, mal pode acertar bom fim,
quem sem ela faz suas contas. Assi que a
ele amor e a mi interesse nos fizerão come-
ter tam atreuido caso: quanto a mim eisme
aqui, quem atè agora me deu a honrra e o
ensino, me dè o castigo desta maldade que
cometi, ou ache eu neles aquela misericor-
dia, que sempre se achou em condições
nobres, e generoso sangue.
Pay Estou frio de mil cores.
Estudante Eu mesmo lhey dalcançar
perdão, pois nace de amar
que os erros por amor
são dinos de perdoar.
Escudeyro Ho falso contentamento,
que o mundo tanto desseja,
daqui faço fundamento
de hir onde ninguem me veja,
fazer vida num conuento.
Moço Essas serão hũas ydas
de queu terey bem saudade:
pois sele vay meter frade,
vayte tu as conuertidas,
pediras pela cidade.
Pay Pois me deu nosso Senhor
tão bom talho a meu tromento,
aja aqui contentamento,
que emfim são erros damor,
que tem leue fundamento.
Vay o Moço chamar os musicos.
Pay Ca dentro dareis a mão
á senhora vossa esposa.
Estudante Jagora minha afeição
he tam dalma e coração
quanto ela tem de fermosa.
Vem o Moço com os musicos que ficam cantando, e vanse todos, e fencee a obra.
Auto do Fisico
Referência:
BICHO, Joaquim Rodrigues, «Colectânea de textos de autores torrejanos (séculos XV-XX)» [introdução e notas de Margarida Moleiro]. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2006, pp. 81-93