A «Colectânea de Textos de Autores Torrejanos (séculos XV-XX)», de Joaquim Rodrigues Bicho, é, como escreveu Margarida Moleiro no texto introdutório do livro, «fruto de um exaustivo trabalho de recolha por parte de Joaquim Rodrigues Bicho, que encerra matéria de índole literária, biográfica, histórica e cultural.» (Bicho: 7)

Vale a pena lembrar aqui alguns desses autores. O padre José Maya dos Santos, nascido em Torres Novas em 29 de dezembro de 1884 era, além de pároco, conhecido pela sua forte ligação à música. Organizou o Orfeão de Guimarães e o Orfeão Torrejano. Dirigiu o jornal «O Almonda», onde foi colaborador, sendo famosas e muito apreciadas as suas crónicas. Aqui se transcreve «A Ponte de Santarém», para aguçar o apetite para outras leituras.

 «A Ponte de Santarém

Vamos levando isto a rir...

            Na quinta-feira da semana passada embarquei para Torres Novas na camioneta dos amigos Claras.

            À entrada da ponte de Santarém, um empregado, invocando ordens superiores, não consentiu que a camioneta passasse a ponte com os passageiros dentro.

            Tive de atravessar a ponte, a pé. Dizem os engenheiros que a ponte está perigosa...

            (A propósito, vou contar a seguinte história: - Há uns 50 anos, houve um tremor de terra e a igreja do Carmo, aí em Torres Novas, sofreu bastante. Foram chamados engenheiros, que observaram a doente e concluiram que uma arcada de violino (palavras textuais, segundo me contaram em tempos) seria o bastante para abalar as paredes da igreja e deitá-la por terra.

            Já depois disso lá cantei com grandes orquestras... lá ouvi Bandas Regimentais quando o rei D. Carlos e Príncipes ali assistiam à missa... por cima dela passou o violento tremor de terra de 23 de Abril de 1909... e a igreja do Carmo ainda não caiu!....).

            Pois... dizem que a ponte de Santarém está perigosa...

            Na sexta-feira fiz a mesma viagem.

            O empregado olhou a camioneta e com um simples olhar avaliou o peso da dita camioneta e decretou solenemente: - Só podem seguir na camioneta cinco passageiros.

            Como me não julguei um dos cinco ditosos, apeei-me e pela segunda vez atravessei a pé a ponte.

            O que dá vontade de rir é que o empregado não se preocupou que os cinco passageiros fossem do peso do meu amigo Manuel Nery... ou fossem cinco meninas cinéfilas, só com pele e ossos, assim a modos de carapaus secos ou ripas com saias!...

            Em sendo cinco... já a ponte não perigava!

            No sábado fiz a mesma viagem. Neste dia, eram três as camionetas da carreira; as duas primeiras passaram com toda a carga e passageiros.

            A terceira, aquela onde eu ia, mereceu um cuidado especial ao empregado e... pela terceira vez, em três dias, tive de atravessar a ponte a pé!...

            Isto, é para agradecer; porque se não fosse esta embirração do empregado, pelas camionetas onde eu viajava... é muito provável que a ponte se não aguentasse comigo e com a camioneta e eu estivesse a estas horas no fundo do Tejo, de sociedade com os sáveis e as enguias!

            Ninguém me tira isto da cabeça: devo a vida àquele zeloso empregado.

            E os meus amigos devem-lhe não terem de andar agora atarefados a deitar a «vela-Maria» para me encontrarem nos pegos do Tejo!...

            E... que morte inglória a minha!...

            Afogado nas escorrências da cidade, que o Runes vomita a poucos metros da ponte!

            Sinto calafrios desde a nuca até à região sacro-lombar... só ao pensar nisto!...

            Durante as três viagens que fiz, a pé, pela ponte, vi passarem por mim camionetas de carga com seis cascos de vinho, a toda a velocidade, fazendo oscilar estrondosamente a ponte, num barulho infernal de ferros!...

Cheguei a passar por quatro camionetas juntas!...

E no último dia passou por mim uma camioneta de carga, apinhada de homens, em doida correria!

Se o sapateiro de Braga fosse vivo e visse aquilo, não clamaria altivamente: - Ou comem todos ou haja moralidade!...

Mas, desalentado, deixaria cair o tirapé e murmuraria: - Poucos comem... e a respeito de moralidade... nicles!

Enfim...

O que era grande favor, era os senhores das estradas explicarem-me uma tabuleta, que está depois da ponte, a indicar o caminho para várias terras.

Diz a tabuleta: Almeirim, Alpiarça, Corucxe, Salvaterra de Magos.

Coruche, sei onde é.

Corucxe... procurei no mapa e não encontrei.

Só se vem naquele livro que diz que as cinco partes do mundo são: Europa, Ásia, Grécia, Pérsia e Neptuno...

 

Santarém, 30 de Junho de 1941

À Janela

BICHO, Joaquim Rodrigues, «Colectânea de textos de autores torrejanos (séculos XV-XX)» [introdução e notas de Margarida Moleiro]. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2006, pp. 335-337

Fotografia – Arquivo Judite Maia

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