Festividades da Páscoa e da Semana Santa em Torres Novas – II parte
Depois da componente religiosa, iremos agora partilhar alguns apontamentos sobre as festividades do ciclo pascal no concelho de Torres Novas, na sua versão profana, de tradição, festa e celebração popular.
Em Árgea, a meio da Quaresma, um grupo de rapazes fazia a serração da velha. Simbolicamente, expulsava-se o inverno, o que é velho e infértil, para acolher a primavera. Os jovens chegavam à porta de uma velha, e recitavam uma quadra satírica chamando a atenção para aspetos que eram alvo de crítica social ou preconceito, ou qualquer característica pela qual aquela pessoa era conhecida, como:
Sarra-se (serra-se) a velha
A Anita Ferreira
Que está na cama
Com uma grande bebedeira
Noutras terras, explicam-nos os autores da monografia «Árgea, história e Património», serrava-se a própria Quaresma.
 
 A Serração da Velha também se fazia em Lapas (e noutros contextos), a meio da Quaresma. Bertino Coelho Martins refere que a “velha” era transportada numa carroça acompanhada dos juízes, advogados e carrascos serradores. No seu percurso eram escoltados por músicos da filarmónica que tocavam com a maior desafinação possível e, à medida que o cortejo passava, diziam-se as tais piadas satíricas sobre as mulheres mais velhas. Estas, em todas as terras onde esta brincadeira se fazia, temiam as piadas de que eram alvo e o riso que provocavam na assistência. Para elas, o divertimento não teria assim tanta graça.
Em geral, no sábado de Aleluia fazia-se o “enterro do bacalhau” ou “julgamento do bacalhau” que tem origem na interdição do consumo de carne durante a Quaresma. De acordo com uma pesquisa de Margarida Moleiro (2008) sabe-se que esta “pantomima burlesca” se fazia em Lapas, Riachos, Zibreira, Pedrógão, Parceiros da Igreja e mesmo em Torres Novas.
 Em termos muito gerais, havia um tribunal constituído por juiz, jurados, advogado de defesa, advogado de acusação, testemunhas de defesa, testemunhas de acusação, escrivão e oficial de diligências: «No julgamento, o bacalhau é mais acusado que defendido (defende-o a Quaresma e duas testemunhas), e embora o juiz sinta relutância em o condenar, a intervenção da Páscoa é decisiva para a sua morte». (Maia: 283)
Em Árgea, os textos que serviam de base a estas representações teatrais foram sofrendo adaptações de acordo com as pessoas envolvidas ou com acontecimentos (locais, nacionais). Inicialmente, as personagens femininas eram interpretadas por travestis, mas em anos mais recentes já contavam com a participação de elementos do sexo feminino, o que seria uma situação rara. Antes do julgamento propriamente dito, fazia-se um cortejo, com todos os elementos e o pobre bacalhau, que acabaria inevitavelmente fuzilado. Noutros contextos seria enforcado ou afogado, mas quase sempre condenado à morte. Em Lapas, por exemplo, o enterro do bacalhau era antecedido de cortejo numa carroça, tal como em Árgea, com juízes de toga negra.
No final do seu artigo, Margarida Moleiro transcreve o texto de um julgamento do Bacalhau do qual iremos apenas reproduzir uma pequena parte:
«Juiz – Oficial, declare que a audiência está aberta.
Oficial – Senhores, está aberta a audiência
Juiz – Faça a chamada dos Snr.es jurados. E quero esse povo de beiços fechados.
Oficial – Meus senhores, pouco barulho que diz, o nosso Senhor Juiz Felizberto Coisa Má.
Jurado – Já.
Oficial – Cazarino Pouca Coisa
Júlio da Fonseca Galhão
Ricardo Pouca Sorte
Simplício da Romana
Januário Alentejano
José Pera Abruinho
Branco Claro das Neves
Gil Gelado
Lagarto Sardinha Leão
José Barata Besoiro
Juiz – Ó oficial, chame agora as testemunhas e veja também lá bem se trazem limpas as unhas. (…)»
Ou os versos de uma sentença, relativa a um julgamento em Árgea (também disponível na monografia já citada):
«Juiz – Bacalhau
Visto o teu crime
ser provado
Tiveste esta infeliz sorte
Por isso ficas sentenciado
A sofrer pena de morte.»
Ainda nesta localidade da freguesia de Olaia, o ciclo encerrava-se com as celebrações do Domingo de Páscoa, para as quais a terra se preparava caiando as casas e limpando as ruas. A banda percorria as ruas durante a manhã e, à tarde, decorria a visita pascal.
Em Carvalhal da Aroeira, refere Luís Correia de Sousa, fazia-se o lançamento de foguetes na noite de Sábado de Aleluia para Domingo de Páscoa, com os foguetes que tinham sobrado da festa de verão. Ocorriam, por vezes, representações na sexta-feira Santa e a tradicional visita pascal fazia-se no Domingo de Pascoela.
Referências:
Maia, Maria Helena, Manuela Poitout e Luís Batista, Árgea, História e Património. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2005, pp. 279-288
Martins, Bertino Coelho, Lapas. História e Tradições. Torres Novas: Câmara Municipal de Torres Novas, 1991, 149-152
Moleiro, Margarida, «O Julgamento do Bacalhau, a cíclica viagem de condenado a salvador: práticas no concelho de Torres Novas», Nova Augusta, n.º 20. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2008, pp. 235-273
Sousa, Luís Correia de, Carvalhal da Aroeira. A memória de um povo. Torres Novas, Município de Torres Novas, 2012, pp. 241-245
Fotografias: Dois julgamentos do Bacalhau, um em 1975 (em que se vê o juiz ao centro) e outro em 1982 (em que é possível ver todos os intervenientes). [Maia, Maria Helena, Manuela Poitout e Luís Batista, Árgea, História e Património. Torres Novas: Município de Torres Novas, 2005, pp. 377 e 379]

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