Musealização da Central Hidroelétrica do Caldeirão – Torres Novas //

Recolha de memórias e testemunhos dos trabalhadores

Continuamos a apresentar os testemunhos dos trabalhadores e operários da Central Hidroelétrica do Caldeirão. Neste processo de recolha, contámos com o testemunho do Sr. Miguel Gaspar


« Entrei para a Central em 1960, como indiferenciado, para fazer todo o tipo de serviço, também fui motorista e aprendiz de eletricista, depois o patrão passou-me para a sala das máquinas para substituir um dos maquinistas conhecido como “Manuel Trapeiro”. Fui aprender o serviço com o Sr. José Alves, e aí permaneci até à integração na EDP. O meu trabalho na Hidro era manobrar com a maquinaria para gerar e calibrar a corrente. O edifício tinha em termos de equipamentos elétricos de produção e distribuição da energia duas áreas principais: Por baixo, a Central, e, por cima, a Subestação onde entrava a linha da hidroelétrica do Alto Alentejo, que abastecia Torres Novas. Na parte inferior, estavam as turbinas. Quando havia água suficiente as facas abriam; e claro, quanto maior era o nível da água mais aumentava a produção de energia. A turbina grande para maior quantidade de água [John Praça] produzia 110 amperes e a mais pequena produzia 50. Era preciso quase um rio para alimentar as turbinas. Chegámos a colocar pranchas no rio que depois por indicação da Hidráulica tivemos de retirar para aumentar o caudal em certos locais. Na década de 1960, com o que o Almonda produzia, o valor dessa energia dava para pagar ao pessoal. Havia um contador na subestação para controlar que ficava no torreão e ainda havia um quadro contador com os circuitos elétricos da rede, que deviam ser uns cinco. As máquinas trabalhavam seis meses por ano, no Inverno. Antigamente os invernos eram rigorosos, com cheias... quando era preciso limpar, tinha-se de fechar as adufas (comportas). As enguias metiam-se nas facas e depois tínhamos de limpar. Para pôr a trabalhar o motor havia um compressor, uma botija com ar comprimido. Quase que se despejava para pôr o motor a trabalhar e obrigava a roda [grande] a andar. Para o colocar a trabalhar deitava-se o gasóleo manualmente no depósito e abria-se a torneira. Depois, para encher a botija de ar comprimido, havia uma bomba lateral e existia um tubo que saía de um outro em vidro, que ia praticamente até ao teto e tinha uma boia que circulava e servia para indicar o nível de caudal da vala. A nível de maquinaria, estava sempre tudo a brilhar. Eu e os meus colegas fazíamos questão.
Depois existia o painel de comando onde entrava a corrente de electricidade que vinha do Alto Alentejo [HEAA]. Entrava pelo torreão, vinha ao disjuntor, descia ao transformador e daí vinha em baixa tensão para o painel, para ser distribuída. Tinha de se controlar a produção das turbinas com a energia que vinha de fora. Entrava em 30.000, saía em 15.000 para distribuir pelas aldeias e vinha mais 220 para o outro quadro de distribuição para distribuir pelos circuitos da cidade. O painel tinha duas lâmpadas transparentes. Quando faltava a eletricidade da Hidroelétrica do Almonda ficávamos só com as turbinas a trabalhar. Então, quando essa corrente era reposta, as lâmpadas acendiam. Na junção das energias produzida e a adquirida, tinha de se regular de forma a que as duas lâmpadas apagassem ao mesmo tempo, para fazer o ponto de equilíbrio. Quando ficava tudo certo nós ligávamos o painel e estava feito o chamado paralelo. Foram mais de 40 anos de trabalho…. Parecia que máquinas faziam parte de nós (…).»

Miguel Luis Gaspar
Maquinista da Central. Torres Novas, 85 anos

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